Foram dias estranhos estes últimos, toda vez que chega em casa, sempre está alterado, bebeu muito, para esculhambar de vez, resolveu agora que também vai se drogar, fudeu-se, foi a primeira coisa que me passou na cabeça.
Num desses dias, ainda cedo, acordei com o barulho da chave na porta, fazia um tempo que tava tentando entrar, fui ter com ele, estava chegando de uma noite bem longa de festa, daquelas em que sempre enchem o saco ”vai porra, toco logo esse violão pra gente ouvir”, percebi que estava um tanto alterado, perguntei, sem aquele ar de cobrança, e ai como foi a festa? Seus amigos todos estavam lá? Antes de ele responder, pude sentir o cheiro do álcool, mas para mim que bebia toda vez que saia do trabalho (porres homéricos, bons tempos), era nítido, ele tava mesmo era muito doido, bêbado, ele tinha estado, me fez duas perguntas, até agora eu não sei responder.
A primeira, "toda vez que fumo presto atenção nas pessoas da rua, da tv etc, e me dou conta de que, em sua grande maioria, nunca vi essas pessoas antes, portanto não sabia que existiam, mas no momento em que as vejo, percebo o que qualquer pessoa com alguma sensibilidade perceberia, aquele cara tem sofrimentos e angustias igual a mim, mas eu não sei de que forma eu posso ajudar, eu nem o conheço, nem sei como fazer para acha-lo, como vou resolver isso?”
A outra, “e a vida é só isso? Saborear sensações?”
Engraçado ele ter perguntado isso, no mesmo dia havia quebrado a cabeça em uma conversa com um amigo, e para essa pergunta, eu já sei, não tenho resposta. Frustrante. Agora me veio uma outra duvida, será que eu vou precisar começar a saborear uma nova sensação para ser uma pessoa mais sensível, sensata...

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